O primeiro dia da FEXPO 2026, tradicionalmente reservado às apresentações de artistas evangélicos, foi marcado por um público bastante reduzido. Apesar da presença de várias atrações da música gospel, cálculos não oficiais indicam que menos de mil pessoas compareceram ao Parque de Exposições.Quando o número é comparado à quantidade de igrejas existentes em Além Paraíba e à expressiva parcela da população que se declara evangélica — estimada em mais de 40% dos moradores —, torna-se inevitável reconhecer que a noite gospel da FEXPO não alcançou o resultado esperado.
Não se trata, porém, de um fato isolado. Nos anos anteriores, o cenário foi semelhante. Independentemente do artista contratado ou da programação apresentada, a grande maioria dos evangélicos não comparece ao evento. Também chamou a atenção a ausência significativa de pastores, dirigentes de igrejas e outras lideranças religiosas. Essa falta de participação demonstra que a realização da noite gospel não parece ser construída a partir de um envolvimento efetivo com as próprias comunidades às quais a programação é destinada.
Diante dessa realidade, é necessário repensar a manutenção de uma quarta-feira da FEXPO dedicada exclusivamente à música gospel. Persistir em um formato que, ano após ano, apresenta baixa adesão pode significar desperdício de estrutura, recursos e oportunidades. A discussão se torna ainda mais importante por envolver dinheiro público. Em um Estado laico, a utilização de recursos dos cofres municipais para o custeio de apresentações de caráter religioso desperta questionamentos e exige transparência, justificativa de interesse público e tratamento igualitário entre os diferentes segmentos da sociedade.
Muitos cidadãos entendem que o poder público não deveria custear shows direcionados a uma religião específica. Outros consideram possível o apoio institucional, desde que a iniciativa tenha caráter cultural, comunitário e seja conduzida de maneira democrática, sem favorecimentos. Talvez o momento não seja de simplesmente acabar com a programação, mas de ouvir aqueles que deveriam ser os seus principais participantes. A Prefeitura poderia promover uma grande reunião com pastores, dirigentes, músicos, representantes das igrejas e lideranças evangélicas para avaliar o que realmente desperta o interesse desse público.
Uma alternativa seria substituir a quarta-feira esvaziada da FEXPO pela realização de uma grande festa religiosa anual, organizada pelas próprias comunidades evangélicas e apoiada institucionalmente pelo Município. O evento poderia seguir os moldes de celebrações tradicionais do passado, como a antiga Festa do Milho ou a Festa de Maio, reunindo apresentações musicais, atividades culturais, ações sociais, espaços para as famílias e participação efetiva das diversas denominações religiosas.
Certamente, uma programação construída em conjunto com as igrejas teria maiores possibilidades de mobilização do que a simples contratação de artistas para uma noite que, na prática, não vem atraindo nem mesmo o público ao qual é destinada.A baixa presença registrada no primeiro dia da FEXPO 2026 deve servir como oportunidade para uma reflexão madura, responsável e sem preconceitos contra qualquer religião.
O que precisa ser discutido é a eficiência do formato adotado, a correta aplicação dos recursos públicos e a real participação da comunidade.Manter uma noite esvaziada apenas por tradição não parece ser a melhor escolha. Dialogar, reorganizar e encontrar uma alternativa capaz de reunir verdadeiramente o público evangélico pode ser mais respeitoso com as igrejas, com os artistas e, principalmente, com o dinheiro do contribuinte.Vale refletir.