Minas Gerais alcançou em 2025 a menor taxa de analfabetismo de sua série histórica: 3,8% da população com 15 anos ou mais. O número representa avanço e não deve ser ignorado, mas está muito longe de ser motivo para comemorações triunfalistas. Por trás da porcentagem aparentemente pequena existem aproximadamente 652 mil mineiros que não sabem ler nem escrever. São centenas de milhares de cidadãos privados de uma das ferramentas mais elementares para o exercício pleno da cidadania.Minas ocupa atualmente a décima posição entre as unidades da Federação com as menores taxas de analfabetismo. Mas transformar uma décima colocação em troféu seria esconder debaixo do tapete uma realidade social vergonhosa. Estamos em pleno século XXI, cercados por inteligência artificial, internet de alta velocidade, satélites e avanços tecnológicos extraordinários. Enquanto isso, brasileiros ainda chegam à vida adulta sem conseguir compreender uma simples frase escrita ou registrar o próprio pensamento no papel.
Não há modernidade capaz de disfarçar tamanho fracasso histórico. No Brasil inteiro, a situação é ainda mais chocante: 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais permaneciam analfabetas em 2025. A taxa nacional caiu para 4,9%, a menor da série histórica da PNAD Contínua. A queda merece registro, mas 8,4 milhões de brasileiros excluídos do mundo da leitura continuam sendo uma multidão.Não estamos falando de uma estatística abstrata, mas de pessoas que enfrentam dificuldades para ler contratos, bulas, placas, documentos e informações essenciais. O analfabetismo restringe oportunidades profissionais, amplia dependências e dificulta o próprio exercício de direitos básicos. É uma chaga social que sucessivas gerações de governantes brasileiros ainda não conseguiram eliminar.
E quanto mais o país avança tecnologicamente, mais cruel se torna deixar milhões de cidadãos para trás. Nenhuma nação que pretenda chamar-se plenamente desenvolvida pode aceitar o analfabetismo como parte normal de sua paisagem social. A redução dos índices é importante, mas reduzir não significa resolver. O verdadeiro objetivo precisa ser erradicar, e não apenas apresentar percentuais menores a cada pesquisa.É necessário alcançar principalmente adultos e idosos que foram abandonados educacionalmente décadas atrás. Programas de Educação de Jovens e Adultos precisam deixar de ser tratados como uma espécie de complemento secundário das políticas educacionais. É preciso busca ativa, escolas acessíveis, horários compatíveis com trabalhadores e condições para que o aluno permaneça estudando.
Também não adianta alfabetizar formalmente alguém e abandoná-lo antes que adquira autonomia real para interpretar e compreender textos. A existência de 652 mil analfabetos em Minas demonstra que ainda há uma dívida social gigantesca dentro do estado. Os 8,4 milhões existentes no Brasil revelam que essa dívida assume dimensão nacional.São números que deveriam provocar indignação, cobrança e prioridade absoluta, e não apenas discursos oficiais sobre redução de índices. O país não pode se acostumar a transformar uma tragédia humana em uma simples porcentagem apresentada em gráficos. Cada brasileiro que permanece sem saber ler e escrever representa uma oportunidade que o Estado e a sociedade deixaram escapar.
Minas avançou, e o Brasil também avançou, mas analfabetismo em pleno século XXI continua sendo intolerável. Enquanto milhões permanecerem à margem da palavra escrita, qualquer comemoração deverá vir acompanhada de uma pergunta incômoda: como um país tão rico ainda permite que tantos de seus cidadãos sejam privados do direito mais básico à educação?