O crescimento da procura por medicamentos destinados ao emagrecimento vem acompanhado de uma preocupação cada vez maior das autoridades sanitárias: a comercialização de produtos falsificados, contrabandeados ou sem qualquer registro nos órgãos responsáveis pela fiscalização de medicamentos.Um estudo que analisou dados de buscas na internet entre maio de 2025 e maio de 2026 identificou aumento expressivo do interesse dos brasileiros por produtos vendidos como medicamentos para emagrecer, mas que não possuem autorização sanitária no País. Entre junho de 2025 e janeiro de 2026, as buscas pelos produtos analisados cresceram, em média, 6,29% por semana.
A popularidade de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, quando devidamente registrados e utilizados sob acompanhamento médico, transformou o tratamento da obesidade e do diabetes. O problema surge quando consumidores buscam alternativas clandestinas, muitas vezes atraídos por preços menores, promessas de resultados rápidos e ofertas encontradas na internet.
As redes sociais e aplicativos de mensagens ocupam posição importante nesse cenário. Algoritmos capazes de recomendar conteúdos a partir das pesquisas e interesses dos usuários podem aumentar rapidamente a exposição a anúncios, vendedores e publicações relacionadas a produtos não autorizados. O próprio estudo observou que buscas por determinados nomes no Instagram foram seguidas pela exibição de conteúdos e anúncios relacionados.A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já orientou a população a desconfiar da comercialização de medicamentos por meio de sites, aplicativos, redes sociais e grupos de mensagens, recomendando que esses produtos sejam adquiridos somente em estabelecimentos regularizados, dentro de suas embalagens originais e com emissão de nota fiscal.
O risco não é apenas financeiro. Um medicamento clandestino pode não conter a substância indicada no rótulo, apresentar concentração inadequada, possuir impurezas ou ter sido produzido, armazenado e transportado sem as condições necessárias de segurança.O tamanho do mercado irregular também preocupa as autoridades. Em uma grande operação realizada em 2026, Anvisa e Polícia Federal identificaram insumos suficientes para a produção de mais de um milhão de dispositivos injetáveis, além de milhares de frascos de tirzepatida manipulados irregularmente. Também foi localizada retatrutida, substância ainda em estudos clínicos e sem registro para uso terapêutico.
Mesmo os medicamentos legalmente aprovados não são isentos de riscos e devem ser utilizados sob orientação profissional. A Anvisa alerta que o uso inadequado dos agonistas de GLP-1 pode aumentar a possibilidade de eventos adversos graves, entre eles a pancreatite aguda. No Brasil, a venda desses medicamentos está submetida à retenção da receita médica.A facilidade oferecida pelo ambiente digital, portanto, não pode substituir a segurança proporcionada pela prescrição médica, pela fiscalização sanitária e pela aquisição em estabelecimentos legalizados.
Emagrecer não deve significar colocar a própria saúde em risco. Diante da expansão de um mercado clandestino alimentado por promessas rápidas e pela enorme repercussão das chamadas “canetas emagrecedoras” nas redes sociais, informação, prudência e acompanhamento médico tornam-se fundamentais para impedir que a busca pela perda de peso termine em consequências potencialmente graves.