Publicações afirmando que a ivermectina seria capaz de impedir o crescimento ou provocar a redução de tumores cancerosos têm circulado intensamente nas redes sociais. Em vídeos, postagens e mensagens compartilhadas por aplicativos, resultados preliminares são apresentados como se representassem uma descoberta já comprovada pela medicina.A realidade científica, entretanto, exige muito mais cautela. A notícia não surgiu completamente do nada, mas vem sendo divulgada de maneira incompleta e, em alguns casos, claramente enganosa.
A ivermectina é um medicamento antiparasitário utilizado há décadas no tratamento de determinadas infecções. Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar a possibilidade de reaproveitá-la contra diferentes doenças, inclusive o câncer.Experimentos realizados com células tumorais em laboratório e com animais identificaram mecanismos potencialmente interessantes, como diminuição da multiplicação de células cancerosas, indução da morte celular e interferência em vias moleculares relacionadas ao crescimento de alguns tumores.
Esses resultados, porém, são considerados pré-clínicos. Isso significa que foram observados principalmente em placas de laboratório ou em animais, e não confirmados de maneira segura e consistente em seres humanos.Uma substância capaz de destruir células cancerosas em laboratório não necessariamente produzirá o mesmo efeito no organismo de um paciente. A concentração utilizada nos experimentos pode ser muito superior àquela que uma pessoa conseguiria receber sem sofrer efeitos tóxicos.
Alguns dos estudos citados nas redes sociais analisaram a ivermectina em combinação com imunoterapias ou outros medicamentos. Entretanto, muitos desses trabalhos foram realizados em animais, possuíam pequeno número de participantes ou não contavam com grupos adequados de comparação.Também ganhou repercussão uma pesquisa envolvendo pacientes que utilizaram ivermectina associada ao mebendazol. Os pesquisadores relataram casos de estabilidade da doença ou regressão tumoral, mas o estudo apresentou limitações importantes.
Não havia um grupo de controle formado por pacientes semelhantes que não receberam os medicamentos. Muitos participantes também haviam realizado tratamentos convencionais, como cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia.Dessa forma, não é possível determinar se uma eventual melhora ocorreu por causa da ivermectina, de outros medicamentos, dos tratamentos oncológicos tradicionais ou da própria evolução da doença.
Relatos individuais de pacientes também não representam comprovação científica. Uma pessoa pode afirmar que melhorou após utilizar determinada substância, mas isso não demonstra que o medicamento tenha sido responsável pelo resultado.Para comprovar que uma substância realmente funciona contra o câncer, são necessários ensaios clínicos controlados, com número suficiente de pacientes, comparação entre grupos e acompanhamento rigoroso dos resultados e dos efeitos adversos.
Atualmente, existem pesquisas clínicas avaliando a ivermectina em combinação com outros tratamentos. A realização desses estudos, entretanto, não significa que sua eficácia já esteja comprovada.Significa justamente que os cientistas ainda estão tentando descobrir se o medicamento funciona, qual seria a dose adequada, quais tipos de câncer poderiam responder e quais riscos estariam envolvidos.Entidades médicas e sociedades de oncologia não recomendam o uso da ivermectina no tratamento do câncer fora de estudos clínicos devidamente autorizados e controlados.
Até o momento, não existe comprovação científica suficiente de que a ivermectina cure o câncer, reduza tumores de forma segura em pacientes ou possa substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e outros tratamentos reconhecidos.Também não é correto considerar a ivermectina completamente inofensiva apenas por ser um medicamento conhecido e relativamente barato.A utilização em doses elevadas, por períodos prolongados ou sem acompanhamento médico pode provocar reações adversas, incluindo problemas neurológicos, alterações hepáticas, interações medicamentosas e intoxicação.
O veredito, portanto, é que a afirmação de que “a ivermectina está reduzindo tumores cancerosos” não pode ser apresentada como um fato médico comprovado. Existem sinais experimentais que justificam novas pesquisas, mas ainda não há evidências clínicas suficientes para recomendar o medicamento como tratamento contra o câncer. A publicação pode ser classificada como uma narrativa incompleta quando transforma resultados laboratoriais ou estudos preliminares em uma certeza médica.
Torna-se efetivamente uma notícia falsa quando afirma que a ivermectina cura o câncer, substitui os tratamentos oncológicos convencionais ou que sua eficácia já estaria comprovada e sendo escondida pela comunidade científica.Pacientes não devem iniciar o uso da ivermectina, alterar doses ou interromper tratamentos contra o câncer com base em vídeos, testemunhos ou mensagens divulgadas nas redes sociais. Qualquer decisão relacionada ao tratamento deve ser discutida diretamente com o médico oncologista responsável pelo acompanhamento do paciente.